Páginas que Despertam
Há silêncios que guardam segredos. Nas estantes de uma biblioteca, entre páginas adormecidas e histórias esquecidas, alguém observa. Vê pessoas chegando, partindo, procurando — ou simplesmente passando. Há muito tempo espera por uma única coisa: ser descoberto.
Aproxime-se. Talvez, entre estas linhas, haja algo esperando justamente por você.
Boa leitura!
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Há muitos anos moro na terceira prateleira de uma biblioteca. Não me queixo da moradia. É seca, silenciosa e, salvo por uma traça de hábitos literários duvidosos, bastante tranquila. O problema não é morar aqui. O problema é que fui feito para sair daqui. Um livro fechado é uma contradição.
Não digo isso por vaidade. Há livros vaidosos, naturalmente. Conheci um dicionário que se julgava dono de todas as palavras e uma enciclopédia que não admitia ignorar coisa alguma. Eu, não. Sei perfeitamente que há coisas que não estão em mim. Aliás, talvez seja esta a primeira vantagem da leitura: descobrir que o mundo é sempre maior do que aquilo que sabemos dele.
Passam diariamente diante de mim dezenas de pessoas. Algumas olham. Poucas veem. Menos ainda param para me observar ou estendem a mão. Outro dia, um rapaz entrou apressado. Perguntou à bibliotecária se havia algum livro pequeno.

— Pequeno quanto? — perguntou ela.
— Que dê para ler rápido.
Confesso que me ofendi em nome da espécie. Não porque sejamos inimigos da rapidez. Há excelentes livros breves e péssimos livros de quinhentas páginas. O que me entristeceu foi perceber que ele não procurava uma história; procurava apenas terminar uma obrigação.
Acabou levando um vizinho meu, magro, de cento e poucas páginas. O pobre saiu feliz. Voltou três dias depois com orelhas dobradas, algumas marcas de lápis e uma mancha de café na página quarenta e dois.
— Que horror! — disse-lhe eu, quando o recolocaram na estante.
— Horror? — respondeu ele. — Fui lido.
Calei-me. Há verdades que humilham.
Continuei esperando. Às vezes, ouvia pessoas dizerem diante das estantes:
— Eu adorava ler quando era criança.
Nunca entendi bem essa frase. Talvez porque sempre me parecesse estranho deixar para trás algo que um dia nos fez imaginar tanto. Mas os adultos têm muitas ocupações. Reconheço. Trabalham, correm, pagam contas, respondem mensagens e dividem o pouco tempo que lhes resta entre inúmeras distrações. Enquanto isso, nós permanecemos ali, pacientes, esperando.
Certa tarde, porém, uma menina parou diante de mim e passou o dedo pela lombada. Esse gesto, para um livro, equivale a alguém bater à porta. Fiquei imóvel. Não por indiferença; livros não sabem fazer outra coisa quando estão nervosos.
Ela me retirou da estante. Depois de tantos meses, senti novamente o ar entre minhas páginas. Abriu-me, folheou algumas páginas, voltou ao início, leu algumas linhas e sentou-se. Aconteceu aquilo para que fui feito: a menina desapareceu.
Não literalmente, é claro. Continuava na cadeira, com os cabelos caindo sobre o rosto. Mas seus olhos já não estavam naquela biblioteca. Eu os havia levado para outro lugar. Esta é uma das nossas pequenas habilidades: não temos pernas, mas transportamos pessoas; não temos boca, mas conversamos; não temos memória, mas guardamos memórias de outros tempos e de outras vidas; não temos coração, mas, de algum modo, sabemos acelerá-lo.
A menina voltou no dia seguinte. E no outro. Às vezes sorria. Em certa página, chorou. Pedi mentalmente desculpas, embora soubesse que voltaria a fazê-la chorar algumas páginas depois. Escritores têm dessas crueldades, e nós, livros, acabamos levando a culpa.

Quando terminou, fechou-me devagar. Uma pontada de tristeza me percorreu. Todo livro teme duas coisas: não ser começado e ser terminado. Antes de me devolver à bibliotecária, porém, ela ficou alguns segundos segurando-me contra o coração.
Foi então que compreendi uma coisa que nenhum prefácio me havia ensinado: eu voltaria para a estante. Ela, não. A menina que me retirara dali já não era exatamente a mesma que me devolvia.
Talvez tivesse aprendido uma palavra. Talvez tivesse conhecido uma época que não viveu, sentido a dor de alguém que nunca existiu, compreendido uma pessoa diferente dela. Talvez apenas tivesse passado algumas horas longe do ruído do mundo. Pouco importa. O que realmente vale é que, de alguma forma, fiz diferença.
E alguma coisa dela ficara em mim: uma dobra discreta numa página, o calor das mãos, talvez uma lágrima que jamais constaria do catálogo da biblioteca. Desde então, continuo na terceira prateleira.
Nós, livros, somos pacientes. Podemos esperar dez, cinquenta, cem anos por um par de olhos. Mas há uma coisa que ainda me espanta nos homens: o medo de envelhecer, de esquecer, de não conhecer o mundo, de não compreender os outros, de ficar sozinho. E, ainda assim, alguns passam diante de uma biblioteca inteira e dizem:
— Não tenho nada para fazer.
Se eu tivesse boca, talvez risse. Mas sou apenas um livro — e livros fechados, como algumas pessoas, guardam em silêncio tudo aquilo que poderiam dizer.



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