Para mais informações sobre como instalar o snippet do Gerenciador de tags do Google, acesse nosso Guia de início rápido. https://support.google.com/tagmanager/answer/14842164
top of page
Design sem nome.png

Desintegrado

Há textos que contam histórias. Outros, expõem feridas.Desintegrado não pede licença — ele invade.Não se trata de entender, mas de sentir o que se rompe, o que se perde e o que ainda insiste em permanecer entre os escombros.


Alex não tinha medo do mundo; tinha medo de si mesmo. Não porque fosse mau, nem porque quisesse ferir alguém, mas porque havia dentro dele algo que não obedecia. Sua mente era um território instável, onde pensamentos se atropelavam e impulsos surgiam antes da decisão. Viver assim era como tentar segurar uma tempestade com as mãos.

Convivia com três forças que poucos compreendiam de verdade. A síndrome de Tourette fazia com que seu corpo produzisse movimentos e explosões involuntárias, às vezes intensas, às vezes violentas, como se algo dentro dele pressionasse um botão sem aviso. O TDAH tornava difícil sustentar atenção, organizar pensamentos e frear impulsos - como se sua mente estivesse sempre correndo, sem descanso. E o autismo nível 2 exigia apoio constante: dificuldades na comunicação, na interação e na regulação emocional faziam com que o mundo fosse alto demais, rápido demais, confuso demais. Mas nenhuma definição alcançava o que ele sentia por dentro.

Na escola, Alex era o menino que quebrava o ritmo da sala. Um movimento fora de hora, um som inesperado, uma reação desproporcional — e tudo ao redor se reorganizava contra ele. Alguns riam. Outros se afastavam. Havia os que o olhavam como problema antes mesmo de tentarem entendê-lo. Poucos percebiam que - antes de cada explosão - existia uma batalha insana e silenciosa – na inútil tentativa de impedi-la.

Falava, mas com esforço. As palavras não vinham com facilidade, como se precisassem atravessar um labirinto antes de chegar ao mundo. E, muitas vezes, quando finalmente chegavam, já não eram suficientes para explicar o que realmente importava. Ainda assim, havia um ponto de paz na existência de Alex. Não era um lugar - era uma presença. Perto de Valéria, tudo diminuía. Não porque seus desafios desaparecessem, mas porque deixavam de ser julgados. Ela não tentava consertá-lo, não o interrompia, não o reduzia ao que ele não conseguia controlar. Apenas permanecia. E, de algum modo inexplicável, isso reorganizava o caos. Ao lado dela, Alex não precisava vencer a própria mente o tempo todo. Pela primeira vez, apenas existia.

Porém – infelizmente - o mundo não se sustenta só em refúgios.

Em casa, a guerra continuava. O corpo agia antes do pensamento. Portas eram atingidas, objetos quebrados, móveis marcados por impulsos que ele não conseguia conter – batia nos pais. E o que vinha depois era pior do que qualquer outra coisa: o silêncio pesado da culpa. Alex olhava para os pais e via o cansaço, a dor contida, o amor insistente. E isso o quebrava mais do que qualquer explosão. Porque ele amava. E mesmo assim – machucava-os.

É fácil nomear de fora. Difícil é habitar por dentro. Quem observa enxerga comportamento; quem vive sente aprisionamento. Nem todo descontrole é escolha. Nem toda falha é descuido. Há batalhas que não aparecem nos olhos, mas acontecem em cada segundo.

O garoto de 15 anos não queria desculpas. Só queria um pouco de controle. Queria que o pensamento chegasse antes da ação. Queria que o amor fosse mais forte que o impulso. Queria ser – simplesmente - alguém que não precisasse lutar contra si mesmo o tempo inteiro.

Numa noite exausta, depois de mais um dia em que perdeu mais do que conseguiu manter, ele se sentou no chão do quarto. O mundo estava em silêncio, mas por dentro ainda havia muito ruído. Chamou a mãe. Sem gritar, sem crise - um cansaço profundo.

- Mãe! Deus ou talvez algum médico pode trocar meu cérebro, não aguento mais viver assim! - Não aguenta mais machucar quem ama, não aguenta mais ser alguém que ele mesmo não consegue controlar.

Esta não é uma história fictícia. Ela é real. Os nomes foram alterados por razões óbvias.Mas a dor, os conflitos e esse pedido pertencem a alguém que existe — e que continua lutando todos os dias contra algo que não escolheu ter. Uma reflexão: O diferente nos assusta ou nos ensina? Rejeitamos o que não entendemos ou aprendemos a acolher o que não podemos controlar? Até onde vai a nossa empatia? Enxergamos a dor… ou apenas o comportamento?

 
 
 

Comentários


bottom of page